Cecílio Elias Netto fala sobre trilogia de livros que vai expor parte de seu acervo sobre Piracicaba

9 de junho de 2015 | Por admin

Stefanie Archilli

Foto: Amanda Vieira/JP

O jornalista e escritor Cecílio Elias Netto (foto), 74, está resgatando a história e as tradições de Piracicaba em uma trilogia de livros.

O primeiro, Piracicaba que Amamos Tanto, foi lançado neste ano e apresenta fotos da antiga Piracicaba. Segundo Elias Netto, a obra promove uma reflexão sobre a memória da cidade que está sendo perdida.

“O objetivo desse livro foi lançar fotos que Piracicaba não conhece, desde o século 19, mostrando o que era Piracicaba e, ao final do livro, faço confronto do que ficou. Lugares maravilhosos e monumentos que desapareceram, informações que o povo não tem mais”, afirmou.

O segundo livro da trilogia vai contar histórias do rio Piracicaba e o terceiro será sobre o açúcar. “O Piracicaba, um Rio que Passou em Nossa Vida é o próximo que estou trabalhando. E o terceiro seria A Doçura da Terra, mostrando que a terra abundante, fértil, a partir do açúcar, da agricultura, construiu essa grande cidade”, relatou.

Neste ano, Elias Netto vai comemorar os 50 anos de literatura com o lançamento de um instituto que leva seu nome e vai preservar o seu acervo histórico, além da 6ª edição do Dicionário Caipiracicabano.

Como foi a ideia de lançar uma trilogia sobre Piracicaba? Começou tudo com o livro do centenário do XV. O editor me procurou, o Arnaldo Branco, da Editora B2, se eu podia participar do livro do XV. Cedi algum material meu e ele acabou tendo uma visão do meu acervo. Ele ficou meio assustado de ver tanta coisa. Falou que eu precisava ver o que fazer com isso, que não podia deixar isso. Eu falei: “também não quero, inclusive quero achar uma saída para dar isso para Piracicaba”. Absurdo eu ter um negócio de 60 anos que estou colecionando, buscando e deixar fechado. Então ele sugeriu: “porque não fazemos um livro”. Começamos a trocar ideia e sugeri Piracicaba que Amamos Tanto. Ele adorou e daí começamos a mexer no meu acervo. Um dia ele disse: “você sabe quantas fotos você tem?”. Eu falei: “olha, eu acho que tenho umas 2.500 fotos”. Ele falou: “não, já está com 14.680”. Eu assustei. Passou um tempo ele disse que passou de 20 mil fotos. Por isso vamos fazer uma trilogia, até pelo aniversário de Piracicaba (250 anos). Então o Piracicaba, um Rio que Passou em Nossa Vida é o próximo que estou trabalhando. E o terceiro seria A Doçura da Terra, mostrando que a terra abundante, fértil, a partir do açúcar, da agricultura, construiu essa grande cidade.

Esse primeiro trabalho é um livro de memórias da cidade? São flashes que eu lanço sobre a história de Piracicaba. Vamos entender o seguinte. Piracicaba está perdendo sua memória. Tenho feito algumas palestras, estou assustado de ver como professores, pessoas adultas, não conhecem Piracicaba. Por exemplo, o Véu da Noiva. Até em material oficial da prefeitura já saiu que o Véu da Noiva é aquela queda d‘água ao lado do salto. Não é. Aquela queda d‘água é artificial de um córrego. O Véu da Noiva é um poema, a primeira estrofe do poema Piracicaba, de Brasílio Machado, de 1867, em que ele chama Piracicaba de Noiva da Colina e fala: “abre sobre nós o seu imenso véu”. O véu é a neblina, a bruma e o rio borbulhava e deixava passar aquela neblina que muitas vezes chegava até o centro da cidade. Eu perguntava, por exemplo, onde está o Itapeva? “O que é Itapeva?”, falavam. Gente, Itapeva é um riacho importante de Piracicaba. Está embaixo da avenida Armando de Salles Oliveira. O pessoal não sabia nada disso. O objetivo desse livro foi lançar fotos que Piracicaba não conhece, fotos de Piracicaba antiga, desde o século 19, mostrando o que era Piracicaba e, ao final do livro, faço confronto do que ficou. Lugares maravilhosos e monumentos que desapareceram, informações que o povo não tem mais. Piracicaba é importante desde o Império. A contribuição de Piracicaba para o Brasil é monumental, essencial em todos os sentidos, especialmente na educação e na ciência. E está esquecida.

Por que a memória de Piracicaba está sendo esquecida? É um conjunto de situações. A de que não se ensina nas escolas é uma dessas situações. Mas ensinar o que se a população desconhece a história? Tenho uma opinião particular de minha experiência como jornalista, que Piracicaba foi vítima de uma tragédia política. Nós tivemos líderes políticos no fim dos anos 60, início dos anos 70, que morreram todos praticamente ao mesmo tempo. Luciano Guidotti, Cássio Padovani, Guerino Trevisan, Lázaro Pinto Sampaio, Jorge Antonio Angeli. Eram líderes que dariam continuidade à cidade. Depois disso, nos anos 70, a transição foi abrupta. Saiu de lideranças muito fortes, que detinham essa tradição, que conheciam essa história, e entrou uma juventude, que por mais animada e inteligente que fosse, não tinha background.

Se essa história está perdida, como resgatá-la? Estou tentando fazer isso desde 1988 quando lancei A Província, que virou um documento, um acervo extraordinário da história de Piracicaba para pesquisa. Com isso comecei a escrever uma série de livros. Escrevi Memorial de Piracicaba e História Política de Piracicaba com o apoio do Jornal de Piracicaba e A Tribuna. A Marly Perecin tem lutado por isso. Outros têm feito. Mas não há uma ação política, conjunta. Então com esse livro Piracicaba que Amamos Tanto eu tenho a pretensão que ajude a dar um start, tipo: “gente, o que nós estamos fazendo?” Nós não somos essa cidade caótica. Não somos essa cidade violenta. Não somos essa cidade sem identidade. Nós temos identidade, inclusive histórica. A minha pretensão e desejo é que esses livros consigam despertar esse entusiasmo que já estou percebendo em parte da juventude, que tem me procurado muito.

Qual o papel da juventude nesse resgate de nossa memória? Tenho sido convidado a dar palestras para juventude e crianças e isso me dá um ânimo formidável. Agora criaram um instituto com meu nome, Instituto Cecílio Elias Netto, que me alegra, pois vai preservar esse meu acervo. E tem um projeto que exigi deles. Não quero que o instituto seja um negócio estático. Por exemplo, tem um grande acervo do Rocha Neto que está lá no Marta Watts. Esse acervo só serve para quem for procurá-los, quem tiver interesse. Eu quero que o instituto com o meu acervo vá até o povo, que eles ministrem palestras, façam exposições itinerantes, promovam a juventude artística, desperte a parte cultural, debates. Em vez do povo ir em busca da pesquisa, levar o conhecimento para o povo e, em especial, para a juventude.

Voltando ao livro, qual história impressiona mais? Esse livro é que nem um coração. Então não sei qual parte do coração que fala mais alto, que bate mais forte. Gosto muito do conjunto do livro, a parte gráfica, houve uma comunhão entre textos, fotos e edição.

O conteúdo dessa obra se confunde um pouco com a sua história? Diria que esse livro é a minha visão de Piracicaba. O meu olhar a Piracicaba. Tanto é que eu digo que esse livro é uma declaração de amor. Claro que é pessoal, sem adulterar datas e os fundamentos históricos dos fatos. Mas é evidente que dou as minha impressões, emoções, sentimentos que tocam do rio, de pessoas. Piracicaba é o grande amor de minha vida. Não consigo me entender fora de Piracicaba.

E como está sendo preparado o segundo livro da trilogia? Esse livro vai ser um canto de amor. Falando em primeira mão, estou fazendo uma loucura. Quero fazer esse livro uma sinfonia pastoral. Quero que as palavras tenham a musicalidade do rio. Cada trecho do rio tenho uma história dele. Fiz a viagem até Tanquã, fotografamos e filmamos tudo. Sei o nome de cada trecho. Quero publicar as lendas, o folclore do rio Piracicaba, as histórias de pescadores, pescarias, ranchos antigos. O rio como fonte de vida, porque o rio existe antes de Piracicaba. Ele deve ser lançado em abril do ano que vem e, em 2017, devem ser dois livros. O do açúcar, que encerra a trilogia, e um livro sobre os 250 anos de Piracicaba.

O caipiracicabano é definido como um estilo de vida. Que estilo é esse? É o estilo caipira verdadeiro. Porque o caipira não é entendido. O pessoal durante muito tempo levou o caipira como algo pejorativo. Isso foi culpa de Monteiro Lobato quando ele criou o Jeca Tatu. Mas o pessoal se esqueceu do Joaquim Bentinho, que é do Cornélio Pires. Esperto, inteligente, um caipira bem vivo. A palavra caipira é “kai’pira”, em tupi, ka é mato, mata, pi é água e pira é peixe. Então é aquele que está na mata, às margens do rio em busca do alimento, que é o peixe. O sertanejo caipira. Os bandeirantes eram caipiras. Então o caipira nasce na verdade na cidade de São Paulo, não no interior. Na São Paulo antiga. Aquela linguagem mistura o português arcaico com o indígena e foi criando um tipo de linguagem e essa linguagem veio para o interior. E essa região de Piracicaba, do Tietê médio, foi a região que concentrou mais essa linguagem e acabou ficando marcante. O piracicabano caipira fala com o erre retroflexo, que joga a língua para dentro. Ficou um tipo de sotaque e eu acho que isso é uma grife para Piracicaba. O caipira é aquele generoso, hospitaleiro, aquele sábio, então essa cultura caipira é uma preciosidade que caipira tem que defender. Estou lançando mais uma edição do Dicionário Caipira, agora em agosto. Faz 28 anos que esse livro está na praça e eu ainda encontro palavras e expressões para colocar. Encontro áreas da cidade que ainda falam desse jeito.

A trilogia também comemora 250 anos da cidade. Acredita que hoje nós conseguimos entender a cidade ou ainda existem muitos mistérios nesta história? Eu acho que para entender, precisa aprender. Uma frase importante do livro que define todo essa obra é de Santo Agostinho: “Ninguém ama aquilo que não conhece”. Então, se você não conhecer Piracicaba, você não pode amá-la. E se nós não conhecemos, não podemos prever o futuro dela. Eu tenho muito receio da Piracicaba caótica de hoje, sem referencial, uma cidade sem parâmetro, que ela pode perder a identidade. Se Piracicaba perder a identidade, ela vai ser como outra qualquer. Até pior, talvez. Costumo dar o exemplo: da árvore e os seus valores. Na primavera, os valores da árvore são as flores. No outono são os frutos. No verão, a alegria, e no inverno caem as folhas. E depois começa tudo de novo porque ela tem uma raiz, um princípio. Então Piracicaba pode mudar de valores, o mundo está mudando. Mas ela sempre tem retorno à sua raiz. Se Piracicaba não retornar à sua raiz, ela não tem para onde ir. Estamos em uma encruzilhada, que é um lugar de parar e pensar. Piracicaba tem que parar e pensar, dar um passo para trás. Piracicaba tem que renascer, recomeçar.

Como o senhor vê o futuro de Piracicaba? Não sou de fazer prognósticos, mas eu desejo que Piracicaba volte a ser aquilo que ela foi, a Atenas Paulista, a Pérola dos Paulistas, a Florença Brasileira, a Cidade Universitária. Piracicaba foi tudo isso. Então eu queria, que dentro dos novos tempos, ela voltasse a ser isso. Com nova mentalidade, aceitando as novas tecnologias, mas sem perder o princípio.

Fonte: Jornal de Piracicaba

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